O salário médio de um cubano é de 720 pesos cubanos, ou 30 CUC, ou 22 euros ou R$ 53 reais por mês. Claro que o preço dos alimentos, roupas e outros bens são mais baratos que em outros países como o Brasil, mas ainda assim pesam bastante no bolso dos residentes da ilha socialista.
Uma peça de roupa custa uns 30 pesos. Um pacote de bolacha 2 pesos, suco de litro também. Arroz e feijão podem chegar a cinco pesos. Uma televisão custa 300 pesos. Comer em restaurante popular custa 20 pesos. Nesse sentido, uma pessoa que trabalha no centro de Santiago, por exemplo, que ganhe 720 pesos não tem condições de almoçar no restaurante todos os dias.
Claro que o governo subsidia parte da alimentação do povo. Há o que se chama de cesta básica cubana: o estado custeia uma libra por pessoa de cada item que a compõe, como feijão, arroz, farinha. O problema é que uma libra, comprada por um preço menor que o de mercado na cesta, dura em média quatro refeições – o que obviamente não dápara o mês inteiro.
Na minha viagem de 20 horas de trem de Havana a Santiago pude perceber que realmente o PIB cubano vem do agronegócio de baixo valor agregado, além do turismo. E grande parte vem da agricultura familiar (para não dizer a maior parte). No geral, são pequenas extensões de terra com plantação ou gado. As habitações são de madeira e palha, mas há outras que remetem às CDHUs de São Paulo no meio do campo, quando não às favelas cariocas em menores proporções.
Há muitas vias sem asfalto, como A Estrada Vieja para El Cobre, cheia de buracos e pedregulhos. As habitações coletivas rurais, que parecem as CDHUs, também são cercadas de pequenas extensões de terra onde as famílias plantam e colhem para subsistência e para vender para os mercados locais.
Parte da paisagem rural remete, ainda, ao sertão nordestino. Casas muito simples e pequenas em meio a uma espécie de cerrado, completamente isoladas do mundo. A vida na cidade é difícil, mas acredito que a vida no campo seja muito mais.
Ninguém fala em públco sobre o socialismo, pois há muita censura, mas os cubanos não reclamam do sistema além dos baixos salários e da falta de liberdade para viajar. Sempre ponderam que todos têm os mesmo direitos e que não há uma desigualdade acirrada como em outros países – como o Brasil. Dizem, ainda, que não há violência.
Confesso que não senti mesmo violência em minhas caminhadas pelas cidades. Há muitos policiais em cada esquina para proteger os turistas do elevado assédio dos cubanos, que te perseguem nas ruas para tentar vender charuto ilegal. O contrabando é muito comum e, desculpem-me, compreensível.
Um taxista (sim, falei com muuuuitos taxistas) contou que seu maior sustento vem das gorgetas que recebe das corridas (o dinheiro ganho com os passageiros é do governo, não se esqueça que até essa categoria é assalariada). Ele é formado em engenharia mecatrônica e ganhava 20 CUC por mês antes de ter decidido ingressar no turismo (porque taxi em Cuba não transporta cubanos, só turistas: é muito caro em pesos).
Ele só tem computador porque sua filha é engenheira da computação, mas não tem acesso à internet. Não há quase comunicação com o mundo - internet só em hotéis, de acesso aos turistas, que pagam 6 CUC por hora.
A curiosodade do cubano em relação ao resto do mundo, contudo, é enorme. O inspetor do trem que peguei para Santiago se sentou comigo por quase uma hora para saber como era São Paulo, o Rio de Janeiro e Paris. Imagino o que é não ter acesso ao Cristo Redentor, às ruinas gregas e à Torre Eiffell além dos livros de escola – nem mesmo pelo Google.
Um país que vive hoje do turismo – a ponto de ter de criar uma moeda para estrangeiros, para que a sua própria não se desvalorizasse tanto – impede que o seu povo viaje e conheça o que é o mundo não socialista. Confesso que esse é o meu maior dilema em relação ao país… não sei ainda se o cubano defende o socialismo porque o ama ou porque não conhece nada além dele.
Cálculos
Segundo informações do Banco Mundial, o Produto Interno Bruto (PIB) cubano é de US$ 62,7 bilhões, sem descontar a inflação do perído. Os últimos dados atualizados são de 2008. No país há 11 milhões de cubanos, o que garantiria um PIB per capita de US$ 5,7 mil, valor bem acima do rendimento médio (720 pesos, ou US$ 35).
No mesmo ano, o PIB brasileiro atingiu US$ 1,6 trilhão, um PIB per capita de US$ 7,9 mil, tendo em vista seus 190 milhões de habitantes. O rendimento médio do trabalhador, contudo, é de R$ 1,5 mil (US$ 937). Claro que as duas economias são incomparáveis em tamanho (e não só nisso). Mas é uma comparação que não consegui evitar.



