Com os olhos baixos, porém cheios de ressentimentos, a garçonete veio a nós timidamente. No restaurante, além de mim e um mexicano que acabara de conhecer – pessoas perdidas se reconhecem – estava um casal. Um alemão beirando seus cinquenta anos e uma jovem e linda cubana, negra, de uns vinte e pouco anos.
Eu e Osvaldo, o mexicano, estávamos compartilhando nossas impressões sobre Cuba. Eu estava falando alto, como de costume, em como havia gostado do país, porém como achava triste a homogeneidade da pobreza – e que talvez um socialismo fechado não fosse mais o melhor modelo econômico para o país. Questionei também o que havia ouvido da boca de um cubano genuíno, taxista: “o melhor seria fazer como a china”?
Em meia hora de conversa, ouvida com cautela pela garçonete, uma jovem e simpática cubana de 26 anos, que mora com o namorado em Havana, veio a moça complementar nossas impressões.
A princípio, parecia uma fervorosa defensora do socialismo que, com muito respeito e tranquilidade, revelou argumentos de que em Cuba não existe violência, que as pessoas têm direito a uma libra de produtos da cesta básica (arroz, feijão e itens básicos) a preços subsidiados pelo governo, que todos têm os mesmo direitos.
Quando o casal saiu – uns cinco minutos depois – ela amenizou seu discurso e disse que é complicado falar publicamente sobre o socialismo. Explicou, inclusive, que aquele casal era um típico exemplo da realidade cubana: para fugir do país, muitas jovens se casam com o primeiro turista que se encanta por elas, sem amor, sem atração (mesmo porque, os estrangeiros fisgados são geralmente bem mais velhos que elas). A garçonete, contudo, disse que não julga essas moças, mas as compreende. Gosta do socialismo, embora reconheça nele muitas falhas, e não trocaria Cuba por outro país, mas gostaria de viajar, o que é proibido pelo governo na ausência de motivos cabíveis, como trabalho.
Com frequência falta água, gás e luz no meio do dia – e eu que reclamei que tinha de esperar 10 minutos por água quente no chuveiro todos os dias. Lembro que foi muito engraçado chegar a Havana e ao hotel pela primeira vez. Fiquei horrorizada com tudo. O serviço da recepção é muito ruim, os quartos são simples demais, é preciso implorar por papel higiênico. Mas, no fim da viagem, tudo ficou muito normal. Engraçado como a gente se acostuma.
O Nacional, hotel favorito de Al Capone em Cuba, é muito diferente, um típico cinco estrelas, com todos os serviços e acomodações imagináveis, arquitetura moderna. O jardim é maravilhoso… Mas é engraçado, o Nacional é o oposto da realidade cubana.
Conseguir moradia é muito difícil, ela diz. As pessoas precisam se inscrever numa lista e aguardar anos para conseguir um lugar disponível. Quase não se constrói casas novas. O mesmo ocorre com os carros.
O restaurante onde trabalha, inclusive, está aguardando disponibilidade para se mudar para um lugar maior. Há somente espaço para quatro mesas no atual lugar. Querem ir para um espaço mais amplo e visível aos turistas.
Uma coisa que me surpreendeu também em Cuba é que os restaurantes de bairro são muito escondidos, embora sejam voltados para os turistas – cubanos não comem em restaurantes, é caro (e as refeições não passam de 10 CUC. Um euro equivale a 1,3 CUC. Mas 1 CUC vale 24 pesos cubanos). Os “paladares” (como se chamam aqui) ficam embaixo de sobrados residenciais, geralmente, em ruas de paralelepípedos e prédios muitos antigos, que remetem a subúrbios.
Creio que ficamos meia hora ouvindo e conversando com a garçonete. No fim, ela teve de voltar à cozinha. Uma outra funcionária havia chamado, com um ar de repreensão, embora cheia de sorrisos. “Estou explicando o socialismo”, defendeu-se. Minutos depois, havia retornado para dentro da cozinha. Só a vi novamente quando trouxe a conta.


