Um primeiro olhar sobre Cuba e os resquícios de uma revolução

27 03 2011

El Malecon, Havana

Ninguém consegue resumir Cuba tão bem quanto um taxista muito simpático que conheci em Santiago. E justamente por isso vou começar minhas impressões da ilha socialista, que tive o prazer de conhecer e visitar por exatos 13 dias, com a transcrição de suas sábias palavras, ditas em tom sério e finalizadas com ares de esperança num suave sorriso.

“Somos todos pobres iguais. Não há ricos nem maneira de acumular riquezas. Também por isso não viajamos para outros países – é necessário, ainda, uma carta de convite do seu conhecido no estrangeiro e a autorização do governo. Gostaria muito de poder viajar…

Entretanto, todos temos as mesmas condições de estudar e usar o hospital quando necessário. É possível que uma pessoa não trabalhe naquilo que se formou (eu mesmo sou engenheiro), mas ela teve o direito de estudar, seu estudo foi pago pelo governo. Pode ser que agora não haja vaga para ela em sua área, mas poder ser que exista em outro momento. Mandamos médicos para o Haiti quando teve o terremoto, por exemplo.

Hoje estamos enfrentando dificuldades por conta da economia. Precisamos descobrir um meio de crescer e de distribuir, assim, mais riquezas. O bloqueio com os Estados Unidos prejudica a nossa balança comercial. Mas estamos trabalhando nessas questões econômicas, nosso maior problema hoje. Essa é a preocupação da nova geração. Ela cuidará disso.”

Cuba da agricultura familiar, a maior parte do país

Nos posts a seguir vou relatar um pouco da minha visão na viagem que fiz dos dias 13 a 25 de março a Cuba, passando (de trem) de Havana a Santiago. Ressalto aqui que sou jornalista de economia, o que torna o meu recorte um pouco enviesado para o cotidiano social e não tanto para as belezas naturais e arquitetônicas do país – menos ainda para a culinária e a salsa.

No fim, a beleza cubana me intriga ainda mais hoje do que antes dessa experiência. Estou tão confusa em relação ao socialismo cubano! As pessoas se conformam hoje com o pouco que têm – e fico pensando se o pouco que têm não é apenas resultado da minha base capitalista e consumista de comparação.

Os cubanos não pagam por nada além dos gastos de custeio, mas o sistema não gera riquezas suficientes para garantir uma boa distribuição dos recursos. Talvez o que Cuba tenha para ensinar, portanto, é que ninguém é autossuficiente nesse mundo e que o isolamento é um suicídio de longo prazo.

Mas, novamente, não sei o que pensar. Nada disso pode ser de fato pouco se levarmos em consideração que a vida antes da revolução era pior para a grande maioria. Isso pode não ser pouco se relevarmos o fato de que é o governo quem paga por tudo. Isso pode não ser pouco se destacarmos que o povo se orgulha de seu país, embora reconheçam as suas falhas como algo normal e inerente a qualquer sistema.

Não sei se me irrito ou se me emociono cada vez que um cubano defende o socialismo. Não consigo tirar da cabeça a frase de outro taxista, engenheiro mecânico: “Não sei o que é capitalismo, então não sei se o socialismo é melhor”.

Centro de Havana Vieja

Não há imprensa livre, só a partidária e o maior veículo é o jornal Granma, do partido comunista. As pessoas só conhecem aquilo que lhes é oficialmente contado nos folhetins, nos livros enviesados de escola.

Um povo que lutou tanto por sua liberdade e por seus direitos parece hoje apático aos seus próprios problemas. Parece ter se acomodado na confiança a um partido opressor, que lhes nega o direito do livre pensamento através da informação, oferecendo, em troca, um sistema que não garante a cobertura de todas as demandas básicas da população.

Isso me irrita. Mas, ao mesmo tempo, me fascina a visível força e paixão de um povo que conhece a luta armada e que defende a sua nação da visão pequeno burguesa de seus turistas – mesmo quando reconhecem que a realidade está ainda muito distante do crescimento econômico e de melhores condições de vida.

Eu realmente acho que os cubanos merecem um transporte de qualidade, e não a lataria velha e quase sem estofado dos trens, da lotação improvisada, feita de um caminhão de carga animal. Acho que merecem um banheiro que não esteja cheio de fezes no chão do vagão. Merecem assentos confortáveis.

Por isso não entendo a sensação de que está tudo relativamente bem. Acredito, inclusive, que jamais saberei o que é ser cubana. Não importa quantas vezes eu utilize o transporte público, frequente os minúsculos “mercaditos”, os restaurantes populares do centro de Santiago, as ruas residenciais. Nunca saberei além da minha visão estrangeira e intrusa.

De fato, é melhor ter a oportunidade de estudar engenharia e nunca exercer a profissão do que não ter chances de frequentar uma faculdade? É melhor que ninguém tenha chances de acumular um dinheirinho – e não riquezas – para viajar para que todos compartilhem do pouco que o país gera? Talvez. Ou talvez não.

Mendigo dormindo no centro de Havana Vieja

Eu nunca saberei o que se passa no coração de um cubano e confesso que não sei se amo ou odeio o conformismo de hoje. Mas o fato é que Cuba é um país lindo por suas riquezas naturais e por sua história, que conta com a força de um povo guerrilheiro.

No fim, essa viagem valeu muito a pena ainda assim, sem moral no fim do conto. A simples existência de um sistema como o cubano já é muito relevante por nos fazer questionar o verdadeiro papel da vida em sociedade.

Sinto desapontar-lhes, mas essa história não tem fim. É apenas uma pensata e um convite a deixar tudo o que você conhece para trás. Nada do que eu diga será capaz de revelar a vida cubana e talvez seja essa a beleza do meu turismo: o prazer da dúvida e da inquietude do pensamento. Talvez seja o ar dessa ilha, mas já me sinto um pouco revolucionada – embora não revolucionária.


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