
Cadilac de 1956, comum nas ruas cubanas
Casas e pequenos prédios projetados em arquitetura colonial te levam ao século XVII, enquanto os chevrolets que dominam as ruas de Havana remetem à década de 50. A capital cubana traz suas contradições logo em sua arquitetura, que dá à cidade um ar de antiguidade e grande charme – projetando, principalmente, o presente de uma economia parada no tempo há cinco décadas. Muitas construções estão em ruínas, outras em reforma para atrair mais turistas, segmento de grandes investimentos do governo hoje.
No centro da cidade já é possível perceber a grande contradição que é a ilha. Lá só existem turistas e cubanos que pretendem atrair turistas com livros de Che e de história local, souvenires e trajes típicos – muitos deixam você tirar uma foto “típica” por alguns trocados. Há muitas obras em andamento, prédios históricos em restauração. Tudo no centro para atrair mais turistas, os únicos agentes que ainda movimentam a economia cubana.
Quando você anda um pouco além daquela parte projetada para agradar, percebe a homogeneidade da pobreza. O sistema socialista proporciona saúde, educação, lazer e esportes gratuitamente, mas as riquezas que o país gera são muito pequenas para sustentar seus 11 milhões de habitantes (em havana são 2 milhões). Todos são, portanto, visivelmente pobres por igual.
Mesmo em Havana, que é a cidade mais desenvolvida da nação, é possível perceber os contrastes do socialismo. Uma coisa é Havana dos turistas, espalhada por pequenos pontos restaurados e repletos de policiais. Outra é a Havana dos cubanos. A Havana de ruas bem estreitas, de paralelepípedos, pés descalços, mendigos e contrabandistas de charutos – que, por sinal, assediam muito os turistas deslocados que passam cheios de sacolinhas de souvenir, seguindo-os pelas ruas.

Cidade de Camaguey, interior do país
Antes mesmo de chegar à Havana, você vai se surpreender com a ilha. O aeroporto da capital, primeiro contato dos estrangeiros com o que restou do socialismo no mundo, já diz quase tudo sobre Cuba. A infraestrutura do aeroporto é muito antiga, sem grandes tecnologias, sem dutty frees luxuosos, quase sem comércio além das casas de câmbio, da venda de camisetas do Che, das garrafas de rum e das caixas de charutos. É possível observar, logo ali, que Cuba é um país realmente isolado do mundo, que tenta se erguer sozinho basicamente por meio daquilo que produz – que é pouco e de menor qualidade na comparação aos seus contemporâneos.
Os taxistas te chamam no desembarque e grudam em você – até te aguardam trocar seus euros, sem pressa (sim, leve euro, pois o dólar é penalizado com sobretaxa por sansões comerciais dos Estados Unidos). São, em grande maioria, servidores públicos, como os demais cubanos. Trabalhadores liberais são raros: encontram-se nos serviços como hotéis e restaurantes. Quase nada é privado. Até as agências de turismo são do governo e só oferecem passeios que mostram as belezas oficiais do país.
Os carros que dirigem – e que monopolizam as calles cubanas – são chevrolets fabricados em 1956, que vieram dos Estados Unidos para as famílias ricas cubanas que habitavam a ilha antes da revolução. E muito se orgulham de que carros tão velhos continuem operando “em ótimo estado de conservação”.
Por debaixo dos panos
Oficialmente, quase todo mundo trabalha para o governo, então as pessoas não falam mal do sistema jamais. Defendem absolutamente tudo. Mas garçons, funcionários de hotéis, taxistas liberais (que são ilegais) contam um pouco mais do que é a realidade do regime socialista fechado de Cuba. A dona de um restaurante em Vedado, contou que os cubanos recebem tudo do governo, mas é tudo muito pouco. “Gostaria que as nossas vidas fossem mais fáceis como a dos turistas”, brincou.

Centro comercial de Santiago
Ela destacou, inclusive, que um advogado ou engenheiro ganha em torno de 1500 pesos cubanos (vale lembrar que 1 CUC, moeda conversível de acesso a estrangeiros, é igual a 24 pesos cubanos. Um CUC equivale a 1,3 euros). Ou seja, mesmo os mais especializados cargos ganham muito pouco, o que é insuficiente para viver bem no país. A média de salários, inclusive, é equivalente a 30 CUC por mês. Isso torna os restaurantes inacessíveis para os cubanos: as refeições não saem por menos de 10 CUC.
Um taxista que me levou ao centro várias vezes me contou que é engenheiro formado, mas que preferiu abandonar a profissão para viver melhor dirigindo taxi. Em cada esquina existe um taxi – aliás, uns cinco.
A prestação de serviço é, no geral, muito ruim em Cuba – remete ao típico tratamento do funcionalismo público brasileiro. Mas as pessoas são geralmente muito abertas e extrovertidas. Aliás, são abertas até demais.
O porteiro do hotel onde me hospedei vendeu, por debaixo dos panos, uma caixa de charutos Cohiba por 50 CUC. A caixa custa uns 150 CUC na loja. Em Cuba é muito comum o contrabando. Muitos roubam parte de suas produções nas fábricas de charuto e saem vendendo por aí. Outros roubam fumo. E outros, simplesmente, conhecem a fabricação e utilizam folha de banana ao invés de fumo. Por isso, não é recomendável comprar charutos de pessoas na rua, desconhecidas.
Os funcionários chegam a pedir coisas dos hóspedes. A camareira, por exemplo, pediu – sem embaraços – um pacote de bolachas de leite que estavam em cima da minha mesa. Ficou muito feliz quando dei um pacote que não custava mais de 1 CUC. Na rua, as pessoas pedem cigarros, os porteiros disputam com taxistas caixinhas (recompensas) por indicação de restaurante aos hóspedes.

Centro de Havana
Por outro lado, a paisagem cubana no geral é muito bonita, mista de arquitetura colonial e praias inigualáveis. Há um muro que separa a Havana do mar, onde os cubanos se sentam para assistir o por do sol. Aliás, às 21h é realizada o Cañonazo, um ritual de tiros de canhão no forte de Havana velha para lembrar a época em que a região era isolada do resto da ilha. O bairro ficava fechado das 4h30 da manhã às 20h para evitar que navios piratas (ingleses) invadissem a colônia espanhola. Os canhões avisavam os habitantes que deveriam retornar às suas casas.
A era da internet
Séculos depois e a comunicação com o mundo continua limitada. O telefone é muito caro e geralmente a ligação é feita e paga na recepção dos hotéis. Paguei, por exemplo, 16 CUC para falar três com a minha família em São Paulo. Também é possível comprar “tarjeta de teléfono” que funciona como um cartão pré-pago de orelhão público. Só que é raro encontrar uma.
Já a Internet é de difícil acesso. O único método de utilizá-la é comprando uma “tarjeta de internet”, que dá acesso aos terminais de computadores nos hotéis por 30 minutos ou uma hora. Só existe uma companhia telefônica em Cuba e, claro, é estatal.
Cheguei várias vezes a pensar em desistir por conta disso. Não consigo imaginar o que é viver num lugar em que é tão difícil acessar o resto do mundo.

Cocotaxi, um taxi muito comum e charmoso na ilha
Há muitos mendigos nas ruas do centro para atrair turistas, como em qualquer país onde existem desigualdades sociais (todos). De forma geral, a pobreza é comum a todos. O que nos faz pensar quando Cuba decidirá abrir sua economia para poder gerar mais riquezas e, portanto, desenvolvimento social aos cubanos.
Parece que esse momento está muito distante ainda. Por todas as partes as pessoas são relembradas da revolução, dos valores socialistas e dos “malvados” capitalistas. Há outdoors enormes com frases de Che e Fidel, e de outros considerados heróis de guerra. Também há frases anticapitalistas, criticando o consumo.
Mas não pense você que produtos da Coca Cola não entram na ilha. Os refrigerantes – como Fanta – são importados do México.
Como disse meu amigo taxista, “é como uma injeção de socialismo na veia todos os dias, para que os mais jovens, que não participaram da revolução, não se rebelem contra o sistema”. Questionado se preferiria uma economia capitalista, ele simplesmente me disse: “Não sei o que é capitalismo”.

Escultura de Che, Fidel e Camilo no Museu da Revolução
Confesso que até queria tirar uma foto da casa do Fidel, mas ninguém sabe onde ele mora! Dizem que é por uma questão de segurança, pois ele está muito mal de saúde. Que pena que só o vi em cartazes e no museu da revolução – esse último é o lugar perfeito para ele, por sinal.