Desembolsos com assistência social superam os investimentos em educação durante a era Lula

Nunca antes na história deste país, investiu-se tanto em educação. Esta foi uma recente afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento no interior de São Paulo. Não contente com tamanha impropriedade, complementou que o Brasil se tornará a quinta maior economia do mundo nos próximos quinze anos, se mantivermos as apostas no ensino nacional e aumentarmos o bolo de representantes da classe média. Abençoado pela descoberta do pré-sal durante seu governo, o presidente disse, ainda, que mais importante do que vender petróleo no século XXI, será exportar conhecimento.
Nisso está correto, são os países que exportam serviços (de alto valor agregado) as maiores potências mundiais. Em outro aspecto o presidente também acertou: há uma tradição política do Brasil de não investimento em educação, fator chave para o desenvolvimento do capital humano e, conseqüentemente, agregar valor aos produtos e serviços que ofertamos aos mercados globais. Agora, ele não poderia estar mais errado quanto a sua suposta quebra de paradigma no segmento educacional.
Quando falo em investimentos, não me refiro apenas a números, mas também à qualidade do ensino público nacional. Vamos começar pelos números, então. De acordo com os dados consolidados de gastos da União, de 2002 a 2008 houve uma enorme mudança no ranking setorial de prioridades de investimentos do governo. No último ano presidencial de Fernando Henrique Cardoso, educação ocupava o quarto lugar de volume de gastos, com R$ 13,22 bilhões, atrás apenas de Saúde (R$ 25,43 bilhões) e das eternas campeãs do orçamento, Previdência Social (R$ 123,21 bilhões) e Encargos Especiais (R$ 434,92 bilhões). Vale ressaltar aqui que esta última nomenclatura refere-se a gastos aos quais não se pode associar um bem ou serviço gerado no processo – ou seja, uma despesa nada produtiva, o que nos faz repensar o tão conhecido conceito de ineficiência da máquina pública.
Enquanto Assistência Social ocupava a 10ª posição de prioridades em 2002, com R$ 6,51 bilhões, tal modalidade subiu para o 4º lugar em 2008, antipenúltimo ano do governo Lula, atingindo desembolsos de R$ 28,23 bilhões, 12% acima da próxima colocada, a famigerada Educação (R$ 25,06). Não só assistencialismo se tornou uma ferramenta de política pública do governo, como ultrapassou os gastos com o ensino nacional.
Se levarmos em consideração a diferença de desembolsos em educação de 2002 para 2008, de fato houve um considerável aumento de 90%, mas ele acompanha o crescimento da economia do período. Quando o bolo é maior, suas fatias serão consequentemente maiores também. Ainda nessa lógica, percebemos o significativo aumento em Encargos Especiais, de 70%, e Previdência Social (109%), seguida de Saúde, terceira do ranking de 2008, com 93% de alta na comparação a 2002.
Não nego jamais a importância que o assistencialismo social tem em uma economia em desenvolvimento como a brasileira, mas temos de tomar muito cuidado quando damos predileção a essa prática em sacrifício da educação. Instrução de qualidade é a única ferramenta capaz de agregar valor aos produtos e serviços, pois está intimamente ligada à força de trabalho. Como conseqüência, educação gera renda. E renda movimenta a economia.
Se, ao invés de receberem o peixe, aprenderem a pescar, as pessoas serão capazes de conquistar tudo o que precisam sozinhas. Devemos sempre ter em mente que o Brasil é um país em que apenas 48% de sua população de dez anos ou mais trabalha, de acordo com o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), anunciado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Nesse sentido, um pouco menos da metade da população banca o sustento da outra metade que não exerce nenhuma ocupação. Desse jeito, não há tributação que não pese no bolso desses 48%! De acordo com o Impostômetro, índice da Associação Comercial de São Paulo que mede a arrecadação do país, de janeiro a 12 de outubro foram pagos R$ 811 bilhões em impostos. A expectativa é ultrapassar a casa do R$ 1 trilhão até o final do ano.
Assistencialismo seria uma ótima prioridade se gerasse retorno à sociedade como a educação. Mas não é isso que acontece. Esse trade off do governo resulta em um desencadeamento de problemas para a economia brasileira.
Se o Bolsa Família, por exemplo, trouxesse um benefício maior que seus gastos, eu apoiaria com todo o prazer por meio dos impostos que pago anualmente. Mas, analisando dados recentes do IBGE, percebo que não é bem assim. Levantamento divulgado em julho deste ano aponta que a taxa de desemprego entre a população mais pobre do país é 5,2 vezes maior que as demais, e atinge o patamar dos 23,1%. O nível de desocupação da classe média e dos mais afortunados é de apenas 4,4%. Vale ressaltar que a classe considerada pobre é a que possui renda per capta de até meio salário mínimo mensal.
Já a população economicamente ativa (PEA) composta por indivíduos mais pobres caiu 40,8% entre março de 2002 e julho de 2009, conforme divulgou recentemente o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A PEA passou de 7,5 milhões para 4,5 milhões de indivíduos nesta classe social. Entre as pessoas que possuem renda per capta acima de meio salário mínimo mensal, o desemprego caiu 12,6%, saindo de 942,7 mil para 824,1 mil.
Outro forte indicador de que o governo está precisando apostar mais em educação é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), apurado anualmente pela Organização das Nações Unidas (ONU). Ele leva em consideração o Produto Interno Bruto (PIB) per capta da população, educação e expectativa de vida.
O Brasil teve seu IDH infimamente aumentado de 0,808 em 2006 para 0,813 em 2007, caindo de 70º para 75º no ranking geral, que englobou 182 países nesta última pesquisa, divulgada este ano. A taxa de alfabetização cresceu de 89,6% para 90% no período, mínimo aumento – isso porque não leva em conta o analfabetismo funcional, que é absurdo no país! Já a expectativa de vida passou de 71,9 anos para 72,2.
Até os nossos vizinhos latino-americanos estão melhores no quadro geral. O Chile aparece na 44ª posição, seguido da Argentina (49º), Cuba (51º), México (53º), Venezuela (58º) e Panamá (60º).
Depois de tudo isso, o presidente Lula ainda consegue perguntar “Como é que um metalúrgico consegue fazer 11 universidades, e um doutor honoris causas não fez nenhuma? Como é que pode um torneiro mecânico fazer 214 escolas técnicas enquanto o governo passado tinha criado uma lei de isenção de responsabilidade do governo sobre o ensino profissional?”. De fato, construir escolas é muito bom, mas não é suficiente para garantir qualidade de ensino para ninguém. Não é preciso comentar isso aqui, pois muitos de nós já sofremos as conseqüências de um ensino de má qualidade. Eu estudei em escola pública durante o ensino fundamental e sofri bastante para conseguir me formar em uma universidade de qualidade, posicionando-me no mercado de trabalho.
Isso porque passei por uma alfabetização mais conservadora, de silabação e do “i” de igreja! Hoje, com as manias do construtivismo, para alunos que não possuem a menor vivência para assimilá-lo, e da “traumatização” da criança, que não pode reprovar quando não consegue acompanhar os conhecimentos transmitidos em aula, a qualidade de um ensino público, que já não era boa, só tende a piorar.
Educação deve ser prioridade sim, pois é o principal motor da economia. Os países desenvolvidos já sabem disso, e por isso estão nas posições de destaque mundiais. Falta o Brasil se tocar que há muito além de petróleo e infra-estrutura. Quem sabe assim, um dia na história deste país, conquistemos taxas superiores a 5% de crescimento anual e apresentemos um desenvolvimento realmente sustentável no longo prazo.



A taxa de analfabetismo brasileira, representada pela população de 15 anos ou mais, passou de 10,1% em 2007 para 10,0% em 2008, totalizando um volume de 14,2
O rendimento médio do trabalhador brasileiro passou de R$ 1.019 em 2007 para R$ 1.036 em 2008, uma alta de 1,7%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento abrange a população ocupada de 10 anos ou mais.
Consolidando um período de evolução dos indicadores sócio-econômicos nacionais, 17% da população brasileira, ou 32 milhões de pessoas, sofreram ascensão social entre 2003 e 2008, passando a integrar as classes A, B e C, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
O Brasil conquistou o último lugar de um ranking de 183 países no quesito carga tributária. A apuração é do Banco Mundial e foi divulgada na semana passada. O órgão analisou diversos quesitos, dentre eles o volume de impostos, para mensurar o grau de dificuldade que uma companhia possui para instalação e desenvolvimento de seus negócios em uma determianada região.